domingo, 28 de junho de 2020

Casamento

Chamam de ideologia de gênero a pessoa poder se vestir com as cores que quiser e desenvolver capacidades humanas que independem do órgão sexual que a natureza lhe destinou. Eu chamo isto de liberdade. Faz mais sentido chamar de ideologia de gênero ao enquadramento forçoso dos indivíduos em determinados papéis sociais a depender do formato da sua genitália.

Eu nasci no sexo feminino e, como a imensa maioria das meninas, aprendi desde cedo a gostar de rosa, a ter que me mostrar bonita, a me fazer agradável aos homens e a ter como objetivo máximo ser escolhida por um deles, de quem dependeria primordialmente minha felicidade.

Tudo ao meu redor me ensinou essas lições: meus brinquedos, os desenhos animados, programas de TV, a escola. Em algum nível a gente internaliza o papel e não se elimina esta “ideologia de gênero” por um ato de vontade, por mera racionalização crítica. No extremo você entra em negação. E o que a gente mais nega, mais está dentro de nós, pressionando para sair arrebentando a represa.

Mas ok, se ao menos eu fosse fruto somente de uma das correntes, seria mais simples. Porém, há a tensão do outro polo.

Acredito que a maioria das pessoas nutra desejos de grandeza. Tantos são aqueles que sonham em se tornar celebridades, fantasiam-se na pele de super-heróis e homens de poder. Mas, num determinado momento, olham ao seu redor, cercados por todos os lados de meros mortais. Não demora muito para cair a ficha e pousam seus pés no chão. Assim as pessoas seguem e constroem suas próprias vidas, sem grandes fantasias e frustrações.

Mas quis o destino me posicionar em circunstâncias um tanto diferentes. Nasci no dia do santo “príncipe dos apóstolos” e fui batizada com o nome da bisavó paterna, uma humilde e devota mãe de família do interior de Goiás. Por sobrenome, outro ancestral, uma geração acima dela. Também do lado paterno, mas, diferentemente da bisavó de quem herdei o primeiro nome, este trisavô só me vinculava aos ancestrais masculinos: era pai do pai do pai do meu pai, três vezes avô, um Patriarca com P maiúsculo.

Chefe máximo da nação, alguns diriam que o mais típico presidente da Primeira República. Seu filho primogênito, meu bisavô, ministro da justiça no mais conturbado governo da Primeira República. Daquela geração pra cá, só decadência. Ninguém mais assumiu cargo eletivo, ninguém ocupou cargo na Academia Brasileira de Letras, ninguém sequer se destacou economicamente. Mas todos, invariavelmente, tiveram que se haver com as sombras desse fantasma.

Quanto à velha Mariana, nunca me interessei por sua história. Em que pese minha carolice de infância, em nada me empolgava saber sobre suas rezas.

Quanto ao velho Affonso Penna, tampouco me interessei em saber sobre sua vida, mas por vários anos me fantasiei em sua posição.

Presidente da República, eu respondia quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer. Mas eu não queria ser igual a ele, meu país tinha problemas demais para acreditar que ele tivesse sido verdadeiramente um bom presidente. Eu queria ser melhor. Parecia tudo tão fácil, bastaria força de vontade para mudar: mandar construir casas para os desabrigados, dar comida aos famintos, tirar dos muito ricos e distribuir para os pobres. Quando se é criança, tudo parece muito simples. Algumas pessoas adultas continuam com a mentalidade assim, isso explica como se elegem uns “salvadores da pátria” como o gângster na presidência atualmente.

Mas a complexidade ia batendo, ou melhor, espancando a minha porta, conforme os anos passavam. E começou pelos livros e aulas de história. Como eu adorava ler e ouvir falar sobre os grandes feitos da humanidade e seus grandes homens! Acontece, porém, que eram sempre homens mesmo, como meus ancestrais importantes. Me recordo de algumas vezes repassar as páginas do livro de história e me sentir triste ao constatar a quase ausência de grandes personagens femininos.

Até onde eu sabia, àquela altura da vida, nenhuma mulher jamais havia sido presidente.

Os anos passaram, eu cresci, mas os desejos de glória se mantiveram lá no fundo. Veio a adolescência e a vontade de poder se fantasiou na sua negação. Acabar com toda forma de autoridade e hierarquia, estabelecer um mundo de plena liberdade e igualdade, onde ninguém mandaria em ninguém. Mas é óbvio que, na fantasia desta tarefa redentora, eu não seria expectadora ou mesmo coadjuvante, mas sim protagonista: uma grande e destacada revolucionária.

Lado a lado da aspirante a presidente, agora convertida em liderança anarquista, vivia a princesa à espera do príncipe encantado. Mas na adolescência ela se fantasiou de mulher macho, durona, que debochava das ilusões do amor romântico. Pagava de menina liberal vida louca, enquanto sequer beijo na boca tinha dado.

Até que tive meus primeiros namoradinhos, não sentia por eles nem paixão, nem tesão. Convenci-me de que os relacionamentos na vida real eram assim, essa coisa morna ou mesmo fria. O arrebatamento da paixão só existiria enquanto fosse platônico. Realizado, perderia a cor, o brilho, como ocorria com as demais coisas da vida.

Casei aos 19 anos para poder viver uma aventura do outro lado do mundo. Sem vestido, sem alianças, sem festa e sem paixão. Corrigindo, alianças teve, ainda que umas fajutas de prata, por muita insistência da minha mãe.

Me enojava quando ouvia as pessoas se referirem a mim como casada. Definitivamente eu não sinto que fui de fato casada. Ou fui, mas na mesma medida em que uma mulher que perdeu o hímen, mas nunca na vida experimentou um orgasmo, não é considerada virgem.  Pra mim ela é uma eterna virgem, como tantas tristes mulheres das gerações que nos precederam.

Talvez este meu asco viesse da imagem que construí da mulher casada e, principalmente, da mãe. Não à-toa, quando criança, eu queria que todas as minhas brincadeiras de Barbie se encerrassem no casamento. O ápice e, preferencialmente, o fim da história. Tudo depois disso era tedioso e sem glamour. Parecia o fim da vida, o “game over” dos sonhos. Nem vontade de mudar o mundo a Barbie tinha depois de casar.

Porém hoje, às vésperas de completar meus 35 anos, eu adoraria me casar e o faria com toda a pompa. Me vestiria como uma fada, rodeada de flores e de frente pro mar, cercada das pessoas queridas e uma festa memorável se seguiria à cerimônia.

Mas para que este “ápice” não se tornasse o “The End” da minha história, antes eu preciso realizar outro casamento. Enquanto não conciliar o homem e a mulher que habitam em mim, nada nem ninguém me trará genuína satisfação. Quando o homem e a mulher não mais precisarem destruir um ao outro para tentar existir, aí sim estarei inteira.

Mariana Affonso Penna,

28 de junho de 2020.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Medusa


Me transformaram em medusa, um monstro. Me puseram num pedestal, uma deusa. O pedestal inclinado, prestes a cair. Meio deusa, meio monstro. Punida, amaldiçoada. Punidora, amaldiçoadora. Um poder sempre cambaleante, intenso, mas frágil. A rainha assassina não quer, mas mata porque lhe é inevitável. O desejo de controle que descontrola. Não aguenta o peso, arrebenta a represa. O vampiro que não quer sugar a vida, resiste até que mata a criança indefesa. A perfeição, a ambição, a culpa. Atena lhe pune, mas foi por um homem que sofreu o castigo. E por um homem foi exterminada. O amor ao masculino é sua ruína. Querer sê-lo, querer tê-lo. Reside aí seu poder cambaleante. Homem não é. Meio deusa, meio monstro. Eternamente ambígua, eternamente só.
Mariana Penna, 2020.



sábado, 13 de junho de 2020

Portal




Era noite, eu dormia. Porém, com um sono irrequieto, acordei. Estava sozinha, o quarto era escuro, mas meus olhos, já acostumados à escuridão, conseguiam enxergar.
Havia na parede uma pequenina porta, nunca antes a tinha observado. Era tão baixa que foi preciso me agachar para rodar sua maçaneta. Queria saber o que havia lá guardado. Mas não era um armário. Do outro lado se revelava um baixo e estreito corredor, cuja profundidade não era possível observar.
Sem nada temer, engatinhei para dentro daquela misteriosa passagem e em pouco tempo me vi a frente de uma rampa, como um escorrega. Tudo era escuro lá dentro, mas assim como no quarto, eu conseguia enxergar em meio à penumbra. Escorreguei e foi então que vi muitas cores.
Ao final do escorrega havia luzes, música, mas ninguém estava lá. Apenas um lindíssimo carrossel, no mais clássico estilo francês, girava seus cavalinhos à minha frente. Aquele paraíso tinha o colorido em tons pastel com os detalhes em dourado. As luzes que ele emitia era tudo o que existia em meio à total escuridão do entorno: o carrossel iluminado e o absoluto vazio.
Eu o observava num verdadeiro torpor de encantamento. Era lindo e inebriante. Sentia um prazer genuíno, um contentamento que mesclava excitação e melancolia, como quando você ouve uma melodia que lhe parece tocar por dentro e lhe dominar os sentidos.
Não sei quanto tempo durou aquele curioso êxtase letárgico. Tampouco sei como fui embora e voltei para meu quarto. Mas uma coisa tive por certo, por mais que desejasse, nunca mais voltaria àquele sítio. A porta nunca mais se abriu. De tempos em tempos pensava no carrossel e o relembrava, mas jamais revivi em sua plenitude as sensações que havia experimentado.

Mariana Penna, 2020. 




domingo, 12 de abril de 2020

Colecionador



São muitos os comediantes famosos que sofrem de depressão. Alguns inclusive se suicidaram. O Cartola cantava “quem me vê sorrindo, pensa que sou alegre” e o Freud considerava que todo excesso implicava alguma falta. Mas o personagem da nossa história prefere não pensar muito sobre isso, afinal, todo mundo tem seus problemas, o seu passava certamente pelos excessos e pela impaciência para com tudo o que se repete, tudo que é da ordem do cotidiano. Mas talvez esse não seja de fato um grande problema, pensava ele. Será?
É fácil começar novos projetos, tudo que é inaugural é excitante, difícil é concluí-los. É tão gostoso aprender coisas novas, dá vontade de buscar cada vez mais. Porém, e a prática demonstrou, em pouco tempo tudo que no início parecia tão interessante se tornava trabalhoso, fatigante, repetitivo, enjoativo. O que era um desafio tornava-se limitador, ia encarcerando e conforme seu sentimento caminhava nessa direção, vinha ao mesmo tempo a vontade de navegar em outros mares. Ele era assim com os estudos, com os trabalhos, nada o prendia por muito tempo, precisava mudar ou se sentia enjaulado.
Não é de se surpreender que o mesmo ocorresse na vida afetiva. As relações com as mulheres rapidamente o cansavam. Para sua felicidade o acaso o fez um homem bonito nascido na era dos aplicativos de relacionamentos. Realmente a flexibilidade e a volatilidade daqueles meios pareciam encaixar-se como uma luva à sua personalidade nômade e irrequieta. É tão gostoso quando aparece uma mulher diferente e interessante e que esta lhe retribui a atenção, o que não era incomum. Um frenesi, uma excitação que move a vida lhe acompanham enquanto conhece esta pessoa incrível. Porém, não demora muito e isso passa ou ameniza. Mas logo a seguir há outra mulher ainda mais bonita, e outra ainda mais inteligente, outra certamente será mais divertida, outra deliciosamente mais fogosa, haverá outra mais misteriosa. Sempre há mais e ele sempre quer mais. Tem consciência disso e quer se convencer de que não faz para ostentar números, para pontuar e contar vantagem com os amigos. Sabe que não precisa disso, mas no fundo se compraz por viver toda esta intensidade e diversidade.
Por ter consciência disso e não querer ser má pessoa, é preciso ser honesto, é preciso não iludir. Nunca aprofundar a relação, evitar intimidade. Se necessário, deve pular fora antes que venham sentimentos da outra parte. Dormir junto de alguém? Jamais, muita proximidade gera efeitos indesejados. Se uma ficante se demonstra mais envolvida, é preciso se afastar, manter distância. O convívio desgasta as relações. No dia a dia os defeitos aparecem, os conflitos e as cobranças também. É bem melhor estar com as pessoas em seus melhores dias, quando elas estão com bom humor, quando elas efetivamente querem te encontrar, quando querer beber, rir, fazer um sexo gostoso contigo. Por outro lado, não é nada divertido ter que ouvir desabafos, pessoas reclamando da vida, pedindo conselhos para situações horrorosas em que elas mesmas se meteram, ou pior, quando te pedem alguma ajuda e te dão trabalho. Isso ele definitivamente queria evitar. Já era exaustivo demais cuidar de si próprio para ter que cuidar de outrem. Definitivamente, cuidar de outra pessoa não estava em seus planos de vida. Grande parte dos seus amigos estão casando, alguns tendo filhos. Os relatos dos problemas conjugais e familiares lhe soam como um pesadelo em vida.
No entanto, por contraditório que pareça, ao mesmo tempo que tem aversão a qualquer ideia de compromisso, quer ser lembrado, quer manter algum tipo de vínculo, quer ser marcante para as outras pessoas. Por isso some e reaparece de tempos em tempos. Parece ter sido o mecanismo que criou para não enjoar, não se sentir preso e ainda assim continuar a acumular, sem perder. Mais experiências, mais pessoas, nunca menos.  
De tempos em tempos, porém, se pergunta se há algo de errado com ele. Não parece ser viável viver esta intensidade pelo resto da vida. Mas logo depois chama um amigo para tomar uma cerveja, vai para uma boate ou marca um encontro pelo aplicativo, pois não lhe faltam contatinhos. A leve angústia vai embora até novamente lhe incomodar e ele acionar seus mecanismos para interromper a inquietação.
Hoje, porém, tudo está diferente. Ele está em quarentena. Um vírus mortal força pessoas de todo mundo a se trancarem em casa para escapar a uma possível e asfixiante morte. 2 em cada 8 habitantes contaminados precisará de hospitalização para sobreviver à pandemia. Parece estória de ficção científica, mas é real. O ano é 2020 e o vírus é o covid-19. Por essa, nosso personagem não esperava, quase ninguém esperava à exceção de alguns cientistas e outros ansiosos por um apocalipse.
O desejo mais instintivo de nosso personagem é o de furar a quarentena, continuar a sair, a beber e a diversificar sua vida sexual. Mesmo que o fizesse, porém, o mundo lá fora não é mais o mesmo. Não está mais disponível e lhe sorrindo como era de costume. Bares e casas de show estão fechados. Mesmo que muitos amigos queiram ignorar a quarentena, vários outros estão preocupados com seus parentes ou consigo mesmos. E é principalmente por estar absolutamente apegado à própria vida que nosso personagem resolveu se resignar ao mundo do cotidiano. Como parte do grupo de risco, precisava se proteger.
Trancado em casa, as horas parecem sempre iguais. Viver com seus pais até então era algo que não o incomodava em nada. Era muito confortável na verdade. Seus pais nunca lhe impuseram restrições ao uso do espaço, muito menos responsabilidades ou obrigações. Podia sair e voltar a hora que quisesse, comer em casa ou na rua sem precisar avisar a ninguém. Podia ainda trazer quem quisesse, sem nem precisar apresentar à família. Circulava livremente pelo lar sem quaisquer limitações. Mas agora era tudo diferente. O que era um porto seguro para reabastecer e dar continuidade às suas viagens aventureiras, tornou-se uma prisão horrendamente previsível. A leveza e a falta de rotina que caracterizavam seus dias, repentinamente cessaram de existir.
Tentava se ocupar. Cursos online, papo virtual com amigos, Tinder visando animar a vida quando tudo isso acabasse. Mas nada, absolutamente nada amenizada a ansiedade. Antes calmo, tornava-se agora irritadiço, descontava nos pais, no cachorro, nos gatos, na parede do seu quarto. Era como se sem a intensidade e a renovação constantes não lhe sobrasse nada a que se apegar e sentir prazer. O tudo de repente sumiu e agora parecia só haver falta. E esta falta o consumia. Começou a se incomodar com ela e a pensar sobre o que ela significava. Por que precisava tanto das agitações, da mudança, por que não consegue suportar a repetição, o tédio? Pensou em Freud, nos excessos que encobrem carências, mas não entendia o que lhe faltava. Esta noite, ele socou e quebrou o espelho de tanta raiva por não conseguir responder.

Mariana Penna, 2020

terça-feira, 24 de março de 2020

Vulneráveis


No meio da madrugada, grunhidos de cachorro interrompem meu sono. Seria alguém invadindo a casa? Meu pai também acorda. Salta da cama e rapidamente abre a janela. Já estou de pé quando ouço o som da madeira correndo sobre os trilhos no quarto ao lado. Em nenhum momento pensei em abrir as portas ou janelas, queria evitar o exterior, não deixar que nada pudesse entrar. Meu pai, ao contrário, preocupava-se com o que estava do lado de fora: a cadela em seus gemidos de dor. Eu só temia que alguém pudesse invadir nossa casa. Ainda tonta, segui meu pai rumo ao quintal. Os outros cachorros corriam, pulavam, derrubavam plantas pelo caminho. Chegamos até a cadela. Ela, já idosa, frágil, com problemas de locomoção, havia caído numa valeta e não conseguia se levantar. Enquanto meu pai a socorria, eu olhava à distância, meio dormindo, meio acordada. Depois fui atrás dela, verificar sua condição. Estava ofegante e claramente agitada, na adrenalina. Os outros cachorros, atiçados, pulavam em mim e nela, comportamento que sempre me provoca irritação. Depois que ela se deitou, perto da entrada da casa, eu e meu pai entramos. Tomei um copo d’água, mas estava nauseada, um mal estar físico e mental. Deitei. Medo, descontrole e mais medo e descontrole foram tomando conta. O isolamento se mostrava frágil, em qualquer momento tudo pode desabar. O vírus, as outras doenças, um acidente, bandidos ou simplesmente humanos desesperados: qualquer um desses pode romper o bloqueio e rasgar nossa película de proteção. Nos três dias anteriores, ainda mantive a serenidade. Exercícios físicos, estudos agradáveis: estava cuidando do topo da minha pirâmide de Maslow. Um grunhido de dor no meio da madrugada me fez perceber que a base da pirâmide está rachada e que a qualquer momento pode ruir.


Mariana Penna, 2020, 
Pandemia, 10º dia de isolamento.



domingo, 15 de dezembro de 2019

A última confissão



Volta e meia conto essa história, sempre em tom jocoso. Para atrair meus ouvintes lanço logo uma sinopse: na última vez que me confessei, contei pro padre que não acreditava em deus. Alguns já riem nesse ponto e me perguntam se não é uma piada ou se não fiz propositalmente como um deboche com o religioso. A experiência, porém, foi antes dramática do que cômica. Dessa vez irei contar de forma mais fiel aos sentimentos que me levaram a esta situação aparentemente hilária.
Era uma época difícil pra mim, início de adolescência, escola nova na qual ao invés de amenizar meus problemas de inadequação social, estes se aprofundaram. Eu tinha treze anos, estava na sétima série, atual oitavo ano. Tinha acabado de sair de uma escola na qual eu havia estudado desde que comecei a aprender as letras e os números, aos cinco anos de idade. Apesar dos muitos anos lá, nunca me adequei. Esperava que com a mudança de ares as coisas pudessem ser diferentes, mas a verdade é que se tornaram mais difíceis do que nunca. Nesta segunda escola as zombarias alcançaram seu ápice. Os meninos, principalmente, estavam por trás dessas humilhações. Riam do meu corpo, da minha ausência de curvas, pois enquanto as outras meninas já desenvolviam características femininas, eu ainda era muito magrinha e tinha corpo mais infantil.
Para fugir dos deboches, recorri aos velhos subterfúgios: me esconder na igreja do colégio. Durante a maior parte da experiência escolar, o apelo a deus era meu principal recurso para pedir amparo frente às violências psicológicas que aquele mundo me impunha. Eu rezava e rezava, fazia promessas, frequentava regularmente as missas. Nada mudava, mas eu mantinha minhas esperanças sem questionar jamais o todo poderoso.
Até que o jamais deixou de o ser, e não foi uma escolha. Aos 13 anos a minha fé foi simplesmente se esfacelando. Não era de maneira alguma uma manifestação de revolta por não ter meus desejos atendidos, não foi uma decisão voluntariosa, era, ao contrário, um ato de razão. A lógica não me permitia mais crer. Simplesmente não fazia sentido. A Bíblia tinha sido minha grande verdade, guiou minha vida até então, estabeleceu sentido à existência. Mas seu sentido desmoronou diante de mim frente ao conhecimento sobre a história da humanidade. Os seres humanos existiam há muito mais de 2 mil anos, as religiões eram muitas e de diferentes matrizes, várias delas guardando poucos elementos em comum e nenhuma origem compartilhada. A razão me dizia: Por que a sua fé há de ser a certa se há e houve, no decorrer da existência humana, tantos outros credos?
A consciência disso me assombrava e eu pedia a deus pra me colocar de novo no rumo certo e me dar a fé da qual eu tanto necessitava para manter meus horizontes inabalados. Mas não adiantava, nada adiantava. E eu não tinha com quem compartilhar aquilo, pois não queria que ninguém soubesse. A fé cristã era um elemento que por toda a minha vida consciente, até então, havia dado as minhas bases de sustentação. Porém, eu não tive escolhas, ela simplesmente desmoronou, e toda a barreira de contenção que tentei construir parecia inútil frente à força das pedras rolando ribanceira abaixo.
Mas um padre talvez pudesse me ajudar, era meu recurso último. Fui buscá-lo justamente em meu santuário, na igreja da escola. Era um padre estrangeiro, jovem, seu sotaque sugeria origem hispânica, mas não perguntei, eu estava ali para tratar o meu drama, meu grande drama. A igreja estava vazia, éramos apenas nós dois ali presente. Estava um pouco escuro, dando um ar sombrio ao ambiente. A confissão não se ocorreu no confessionário, mas sentamos em bancos regulares ao final da capela. Desde o Concílio Vaticano II foi-se evitando certas formalidades e o distanciamento entre o clero e os leigos foi desencorajado. Sentávamos lado a lado.
O padre deu início ao rito da confissão e me perguntou sobre os meus pecados. Foi então que disse a ele não saber se era propriamente um pecado, pois eu não tive qualquer intencionalidade frente ao ocorrido, o fato era que eu simplesmente não conseguia mais acreditar em deus e precisava de ajuda por desejar de todo meu coração reverter aquele quadro. O padre ficou estupefato com a declaração. Tento imaginar a surpresa que teve ao ver aquela menininha de 13 anos, com aparência de 11 ou menos, dizendo que não conseguia acreditar em deus. Ele então começou a me interrogar sobre meus hábitos religiosos. Queria saber se eu rezava todos os dias. Respondi que invariavelmente ao amanhecer e antes de dormir e muitas vezes previamente às refeições. Perguntou se eu ia com frequência à igreja. Contei-lhe que participava das missas todos os domingos.
Conforme o jovem padre ia tentando contornar a difícil situação em que lhe coloquei em busca de uma solução para o problema, falhando miseravelmente sua postura tornava-se cada vez mais irrequieta e de desconforto. Enquanto isso eu chorava e chorava cada vez mais intensamente conforme percebia que nem o padre podia me dar respostas para meu problema. Nem ele poderia fazer as coisas voltarem a ser como eram antes. Ao final das infrutíferas tentativas, o jovem sacerdote entregou os pontos. Me pediu perdão pois não tinha como me ajudar. Seus olhos marejaram ao expressar esta desistência. Ele havia perdido aquela batalha, quiçá internamente se iniciava outra batalha. Fui embora, inconsolada. Nos despedimos, não lembro se ele me abraçou ou não, mas lembro do seu olhar de tristeza e desalento que valia por um abraço.
A evasão da fé não foi uma escolha, simplesmente aconteceu. Foi o fim das esperanças num porvir místico. O reino de paz, harmonia e eterna felicidade divina nunca mais serviu de consolo para as frustrações da existência. Não havia mais uma promessa de um futuro melhor, não havia mais esperança na salvação em que eu pudesse me apegar. Por mais dois anos continuei a frequentar a igreja e não compartilhei com mais ninguém a minha falta de fé. Por vezes eu acreditava que ela podia voltar, mas não durava muito e mais uma vez eu me encontrava só. A quem eu poderia recorrer? A que esperanças me agarrar? Não havia. E esta falta de caminhos e de sentido era desesperadora. Mas se por um lado significou perder meu chão, por outro marcou o fim da tutela transcendental na minha vida. Eu não era mais uma serva de deus, pois deus não estava mais lá. Por um breve tempo isso significou solidão e desespero apenas. Mas passados alguns anos isso significaria autonomia e liberdade. Sem mais os comandos nem mandamentos divinos, meus valores deveriam ser guiados por princípios por mim mesma estabelecidos e conscientemente abraçados. Enfim eu podia escolher e assumir a responsabilidade por essas escolhas.
Se a orfandade de deus me deixou temporariamente sem rumo, sem horizonte, nem sentido de existência, mais tarde outras utopias preencheram esse vazio. No passar dos anos, também as utopias foram desmoronando e abrindo espaços para novos vazios. Hoje tenho menos medo da perda de sentido, da perda de um objetivo de vida. Parece que ser e me responsabilizar pelos prazeres e pelas dores da existência se tornaram mais aprazíveis do que o apego à esperança em algo que me transcende e sua promessa de realização suprema. Seja esse algo deus ou a revolução. Mesmo sendo alguém que estuda e entende as utopias e ucronias como importantes motores da história humana, sou eu própria cada vez menos uma pessoa utópica.

Mariana Penna, 2019.



domingo, 15 de setembro de 2019

Branquitude




Luara era uma menina de 10 anos de idade. Uma linda criança de pele negra, cabelos negros e absolutamente lisos, olhos castanhos escuros, quase pretos. Uma garotinha leve, de atitude descomprometida. Parecia flutuar pela existência sem medo de sanções, sem se preocupar se cumpria ou violava regras de convivência. Fomos amigas por um tempo. Certa vez Luara me contou sobre o fim do mundo, disse-me que ele se aproximava e que no ano 2000 tudo iria se acabar. Falava sorrindo, sem preocupação, como se o advento milenarista fosse algo de tão pouca dramaticidade que pudesse me contar como mera curiosidade. Mas eu era pesada, não compartilhava em nada a postura despreocupada de outras crianças. Primeiro, duvidei. Algo tão sério não poderia ter passado alheio ao meu conhecimento. Mas ela afirmou ser real, pois estaria escrito na Bíblia, no livro do Apocalipse. Se estava na Bíblia, para mim era inquestionável. Nada podia ser mais verdadeiro que a palavra do deus, aquele a quem eu tanto temia. Procurei minha mãe para averiguar a informação. Mamãe tentou me acalmar, relativizou, falou sobre o ano 1000 e a continuidade do mundo após aquela data. Mas não adiantou. Eu precisava chegar às minhas próprias conclusões. Li de cabo a rabo o Apocalipse, reli. Aquela linguagem cifrada me tirava o sono e suas passagens escatológicas me assombravam como um filme de terror. Mas Luara não se importava com isso, sequer sofria pela ideia de morrer aos 15 anos. Ela tinha outras preocupações. Certo dia, pela manhã, nos encontramos para brincar num terreno baldio de frente pra minha casa. Ela estava especialmente animada. Pediu para que eu olhasse sua íris com atenção. Perguntou, com euforia, se eu estava conseguindo ver uma manchinha verde próxima à pupila. Observei uma coloração um pouco distinta e respondi afirmativamente. Saltitando de alegria, a menina me explicou o motivo. Na noite anterior, havia rezado muito e pedido a Deus que tornasse seus olhos verdes. Estupefata, olhei para ela assustada, identificando ali uma tremenda blasfêmia, um sério pecado. Não se podia pedir a deus por uma coisa tão fútil, não cabia a nós humanos questionar os desígnios divinos quanto à nossa natureza corporal. Eu também gostaria de ser loura de olhos claros como as paquitas da Xuxa, ou como as minhas Barbies. Mas não se poderia perturbar a deus com algo de tão pouca importância. Não era a saúde de ninguém que estava em jogo, não era uma questão de passar fome, a paz mundial não estava ameaçada por aqueles olhos escuros. Mas, como eu disse, Luara tinha outras preocupações.

Mariana Penna, 2019.