Ontem a noite sonhei com quem eu era. Andava de ônibus conversando com companheiros de militância enquanto voltava para casa. Alguém comentava trechos de minha tese. Foi prazeroso. Senti a presença de lugares e pessoas que já não ocupam mais meu cotidiano. Meu ego inflou, meu olhar do passado, muito mais generoso em certos aspectos, se orgulhava, à época, de pequenos, mas que pareciam grandes feitos. Fui acordada no meio do sonho pela vozinha do meu filho. Meio dormindo, meio acordado, confundiu a cama do hotel com seu aconchego habitual. Depois, já me abraçando para dormir, falou da comida do jantar que queria repetir. Estava frio, esquentei, com o cobertor e o meu abraço, o seu corpinho. A vida é um fluxo estranho, a gente não escolhe muito bem quem e o que ficam para trás. Mas o passado sempre ecoa como uma lembrança distante de que já fomos outros e vivemos mundos diferentes.
Mariana Affonso Penna, 2026.