segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Amizades (e inimizades) descartáveis

Aeroportos são simultaneamente lugares interessantes e irritantes. Neles você presencia desde cenas clássicas do "complexo de vira-latas", até interessantes intercâmbios culturais. Vou contar algumas dessas minhas experiências hoje. A primeira foi de um patricinha extremamente irritante, dessas que fala que brasileiros não prestam porque são mal-educados e fura-fila (detalhe: ninguém estava furando nenhuma fila). Depois do check in, ela fez questão de fingir que ia levar seu carrinho para o local adequado dizendo para a mãe que era preciso ser uma pessoa educada - leia-se "civilizada", diferente desses "bárbaros" e pobres. Deixou no meio do caminho. Bem, até aí nada de novo, cenas típicas dessa gente que se auto intitula "elite", pinta de loiro os cabelos e diz que tudo que vem dos países do norte é bom e superior. Herdeiros do passado colonial (e de seus privilégios) adoram evocar em palavras e atos essa ancestralidade, ainda que falsa, pois, igualmente aos colonizadores ibéricos, são lambe botas de países mais ao norte. 
Mas continuemos com a parte mais interessante da história: uma senhora de provavelmente uns 65 anos veio carregar o celular ao meu lado. Negra, evangélica e moradora de São Paulo, desde que passou a ter direito a viagens gratuitas, devido a sua idade, passou a viajar sempre de ônibus para visitar a família e conhecer lugares novos. Me disse que gosta muito de viajar, em que pese as vezes ter dor por artrose. Mas essa era sua primeira viagem de avião e estava um pouco nervosa, queria me pedir umas dicas. A família ligava toda hora preocupada. Começamos a conversar e o papo foi desde truques para driblar o efeito da pressão nos ouvidos, preços altos da comida no aeroporto até uma profícua conversa sobre violência de gênero. Ela começou a se queixar do alto índice de mulheres em São Paulo que eram mortas por seus próprios maridos e namorados, e após um certo tempo de conversa ela própria assumiu ter sido durante muitos anos vítima de violência. Falou sobre a dificuldade de romper com um relacionamento na época dela, mas como apesar dos estigmas e de 4 filhos para cuidar, o divórcio foi a melhor opção. Era uma mulher muito simples, de fala suave, calma, daquelas pessoas com quem você pode ter uma conversa tranquila mesmo sobre assuntos nos quais haja divergência e tivemos talvez apenas uma: ela achava que a agressividade masculina era algo da natureza e eu dizia ser da criação, mas o tom da conversa foi tão amistoso que não tivemos nenhuma polêmica, mas sim uma troca de opiniões muito boa. Em suma, foi uma boa amiga “descartável”, como diria Tyler Durden em Clube da Luta. Nos desencontramos já no momento do embarque.
Entrei no avião, ao meu lado uma mulher de aparência oriental não largava o celular antes da decolagem, e eu que sou medrosa pensando: “Ai se esse avião cair por causa disso!” Risos! Vi que ela escrevia em caracteres chineses (no momento não sabia ainda que eram chineses, também não entendo nada disso). Mas enfim, a comissária mandou ela desligar e então ela pegou uma revista. É, ela parecia hiperativa. Depois de folhear a revista, mandou para mim um “Do you speak English?” e começamos a papear. Pois bem, ela era chinesa, imigrada há muito para os Estados Unidos e hoje é nada menos que uma alta executiva da JBS, corporação dona da Friboi, maior empresa de matar boizinhos do mundo. Sua função, pelo que entendi, era intermediar as exportações da empresa para a China. Sentada ao lado da inimiga, mas que pelo menos era bastante simpática, fiquei pensando que faz uma ou duas semanas compartilhei uma matéria que mostrava que a Friboi era líder em acidentes de trabalho, mas deixei quieto e logo a conversa mudou para signos zodiacais e horóscopo chinês! Risos! Beleza, a executiva falou qual era meu signo e disse o que isso significava. Falou também que precisava de um namorado brasileiro para aprender português. Conversa amena, até ser interrompida pela liberação do uso de aparelhos eletrônicos e lá voltou a moça para seus caracteres indecifráveis para mim. No pouso, novamente conversamos sobre para onde ia cada uma. Ela disse que tinha uma reunião importante com um grupo de vigilância sanitária da China, o qual ia avaliar a empresa, aí não resisti e falei sobre os acidentes de trabalho. Ela disse que não sabia que eram tantos, mas que a JBS tinha uma política de indenizações generosa... ai, ai! Mas tudo bem, continuou amistosa nossa relação. Ela foi uma “inimiga descartável” também muito agradável. Risos!  

Mariana Penna, 2015.





sábado, 30 de janeiro de 2016

Ave Maria da Sororidade



Minhas maninhas, cheias de graça, eu comungo convosco, pois benditas sois vós, sábias mulheres! Bendito é o fruto da vossa experiência: luta! Bravas meninas, cheias de traumas, unamo-nos em nossas dores, agora e na hora em que a sororidade falha. Amém!

Mariana Penna, 2016.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Espelho


Era um vazio que não tinha explicação, daqueles que a princípio ninguém tem. Mas ela insistia em buscar, porque de fato lhe incomodava. Quando adolescente, isso lhe custou a neurose, uma loucura, nunca completamente superada. Precisava de mais, sempre mais. Em pouco tempo tudo lhe aborrecia. O sapato novo perdia o encanto, a roupa nova parecia não ter um bom caimento, o trabalho prazeroso tornava-se enfadonho. Tudo perdia o brilho, perdia a cor.
Mas era jovem, bonita, portanto, tinha alguns trunfos que davam sentido à vida. Uma nova diversão, um novo prazer, uma fonte de satisfação quase que inesgotável. Mas com prazo de validade, um prazo relativamente curto para o tanto de vontade e vazio a preencher. Cada flerte, cada conquista, parecia saciar uma sede de ressaca. Mas a certeza do amor correspondido lhe trazia o tédio, e o tédio lhe lançava novamente à caça. Queria usar da sua juventude enquanto havia tempo, enquanto esta não lhe escorresse como água perdida pelo ralo. Temia a putrefação do corpo que a idade inevitavelmente traria. Temia que a flacidez da pele, o hálito envelhecido, repelissem outros corpos do seu. Corpos estes que antes a desejavam.
Ao olhar no espelho, examinava-se minunciosamente enquanto esfoliava, hidratava e se enchia de produtos anti-idade. Se a juventude lhe corresse o ralo, como a água de suas mãos escorria, sabia que em seu rosto abririam flancos, dobras, ranhuras e, com isso, seu olhar despertaria no máximo ternura, afeição ou piedade, nunca desejo. Por isso era promíscua, por lutar contra o tempo, para se saciar do que lhe restava da juventude.
Mas sabia que esse subterfúgio não funcionava frente ao problema central, frente ao vazio. Era um preenchimento temporário, fugaz. E o pior de tudo, operava como uma ampulheta, dia a dia havia menos areia, menos dados para jogar. A velhice assombrava. Aprendeu desde a infância que o segredo para fugir do vazio era o amor, alguém para lhe completar, envelhecer junto e compartilhar as alegrias e tristezas da vida. Parecia interessante, a princípio. Mas conforme as pessoas crescem, nada é mais tão simples, o mundo se complexifica. E se você tiver uma mentalidade demasiado cartesiana, planejadora e calculista, as probabilidades parecem apontar que esta é uma má aposta. Era o caso dela. Pensava em quantas pessoas de idade viveram vidas infelizes ao lado de suas supostas “almas gêmeas”, quantas procuraram sem nunca desenvolver um relacionamento, quantas perderam seus amores pelo caminho e tiveram que se defrontar com a solidão. Ok, havia uns casos bem-sucedidos, mas como pessoa que pensa no futuro, as estatísticas eram insatisfatórias, parecia um investimento com poucas probabilidades de retorno. A pergunta continuava sem resposta.
Mas mesmo a razão dizendo que não valia a pena, tinha momentos em que a ilusão de uma fusão com outro ser parecia fazer sentido. Não era comum, mas também não era raro ela se apaixonar em meio às suas conquistas. Nesses momentos era difícil refletir sobre as causas do vazio. Nesses momentos, em verdade, era difícil refletir sobre qualquer coisa, pois tudo o que havia era o medo do vazio e o desejo de preenchê-lo todo de uma só matéria, de um só ser humano. Mas passava, sempre passava, e como tudo o que havia desejado, se esvaía o encanto.
Em geral, nos apaixonamos por quem admiramos. Foi refletindo sobre isso que um dia ela concluiu que a causa das suas fortes paixões, de seus arrebatamentos, vinha de um desejo de possuir determinadas características. Era como uma vontade enorme de ver num espelho aquilo refletido em si, mas não podendo, projetava aquela imagem em outra pessoa. Mas era só uma imagem irreal, tão logo vem a noite e esfria, a miragem vai-se embora e fica a realidade. Assim, ela percebia que aquilo com o que desejava se fundir não existia, portanto, não podia se completar, preencher o vazio fundindo-se com o outro.
Assim, essa teoria apontava para uma nova: unir-se a alguém não era a solução para a definitiva satisfação pessoal e felicidade, era preciso envidar todos os esforços para ser aquilo que se deseja. Queria olhar no espelho e se orgulhar do que via. Não apenas carne e osso, mas tudo, talento, sucesso profissional, vida sexual, amizades interessantes. Só assim seria completa. Mas não, não era possível, ninguém pode conseguir tudo. A aposta então era distribuir a satisfação em várias áreas da vida o máximo que pudesse. Descobriu que se sentir amada, admirada, trazia um especial contentamento, um orgulho muito gostoso de sentir. Provavelmente era por isso que os flertes e conquistas marcaram os ápices de prazer de sua juventude. Mas agora tinha um novo plano, poderia superar a ampulheta do tempo, envelhecer não seria necessariamente o fim enquanto pudesse despertar afeição nas pessoas. Para isso não precisaria de beleza física, mas desenvolver seus talentos, investir seu tempo e atenção no cuidado com os outros.
Parecia funcionar, mas nem sempre. Sentiu-se estúpida ao confrontar o mais óbvio da sabedoria popular: é impossível agradar a todos, por mais que se esforce.
Ainda assim, os anos passam, e o plano provisório não foi tão ruim, teve certo sucesso ao implementá-lo. Sente-se uma pessoa relativamente satisfeita, pois o buraco do peito já não é tão impreenchível como parecia. Ela está com 45 anos agora, ainda bonita, ainda cartesiana, mas ainda sem a resposta definitiva. A última hipótese que passou a testar, encontrou no budismo: para interromper a insatisfação, é preciso interromper o desejo. A meditação seria a via, parar o pensamento seria o meio. Isto dava prazer, era bastante agradável. Mas logo viu que o desejo de não desejar também não era jamais preenchido completamente. Portanto segue, sentindo e racionalizando, racionalizando e sentindo, convivendo com o vazio, sem nunca de fato o aceitar, talvez uma vida não será suficiente para resolver esse mistério.


Mariana Penna, 2016.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Silêncios desrespeitosos


Respeito: 1. Sentimento que nos impede de fazer ou dizer coisas desagradáveis a alguém. (Dicionário Aurélio)

Guilherme era um cara de muitos amigos, parecia de boa, muito sereno, não arrumava encrenca: paz e amor. Mas Guilherme tinha um medo terrível: de que se apaixonassem por ele, sem que pudesse lhe corresponder esse afeto. Não sabia lidar, e era talvez esse não saber lidar que mais lhe assombrasse.
Um dia conheceu Caroline, uma menina linda que parecia trazer consigo um monte de novidades, ousadia e uma vontade de desbravar o mundo. Ele não era místico, mas tinha a sensação de que com a chegada repentina daquela garota tão diferente, uma nova era de aventuras e descoberta de grandes possibilidades se abria em sua vida. Não sabia se estava apaixonado, mas decerto muito atraído. Realmente se inaugurou um novo período em sua vida: excessos, hedonismo, alegrias intensas e fuga de qualquer preocupação. Mas Caroline perdeu a graça, Guilherme não se preocupou realmente em tentar entender o porquê. Talvez ela fosse muito careta, talvez o sexo tenha sido aquele “eclipse oculto” de que falava Caetano, fato é que não fluiu. Ele pouco fazia questão de encontrá-la a partir de então. Mas a garota antes tão diferente e agora tão sem graça, declarou-se para Guilherme em uma tímida mensagem de SMS. Ele sentiu um breve remorso, um desespero de não corresponder aquele sentimento. Mas não podia dizê-lo, calou-se e nunca mais se comunicou com a moça.
Eduarda foi fazer intercâmbio no Canadá. Foram seis meses marcados por muito estudo, mas também muito lazer. Conheceu gente nova, lugares novos, se divertiu e flertou à vontade. Com pouco menos de um mês para seu retorno, demorou, mas enfim foi conhecer Montreal e lá conheceu também Pierre, um francês que estava viajando a trabalho. Estavam no mesmo albergue, ele propôs apresentar a ela os lugares mais interessantes da cidade. Pareceu amor à primeira vista. Na semana seguinte ela voltou a Toronto. Pierre terminou às pressas seus compromissos profissionais em Montreal e foi visita-la. Em uma semana de romance tórrido, o francês confessou à brasileira um ousado “I love you! ”. Caroline estremeceu, o coração acelerou, estava apaixonada, mas não podia responder naqueles termos. Explicou que, para ela, “amor” não era algo que se declarava em uma semana de relacionamento, que significava um vínculo emocional mais forte e que precisava de tempo para se confirmar. Ele ficou um pouco abalado, mas o carinho que lhe foi dispensado pela moça no restante da noite acalmou sua frustração.
Caroline voltou ao Brasil, Pierre voltou à França. Pelos 3 meses que se seguiram, ele a procurava com insistência no Skype e ficavam longas horas a conversar. Mas ela se sentiu um pouco incomodada, e por mais que gostasse do rapaz, achava enfadonho aquele intercâmbio virtual, que lhe parecia um pouco excessivo. Mas a redução do contato foi mais drástica do que a moça esperava, em pouco tempo Pierre interrompeu suas iniciativas, agora era praticamente somente ela quem o procurava.
Passado um ano, Caroline tinha consciência de que aquele “amor de verão” havia marcado sua vida e por mais que a paixão de outrora não existisse, sentia pelo francês um enorme carinho. Era realista, sabia que não ficariam juntos, por isso não tinha fantasias românticas, mas a memória dos belos dias que viveram em Montreal e Toronto criava um sentimento de amizade que pouco a pouco aflorava com toda sua beleza, apesar das reduzidas trocas de mensagens.
Surgiu a oportunidade de visitar a França para participar de um evento acadêmico. Pierre morava em Toulouse, o evento era em Paris. Comunicou ao amigo animada sobre sua viagem, ele informou que infelizmente viajaria a trabalho para a Suíça.
De retorno ao Brasil, recebeu um e-mail dele se desculpando e falando sobre como ela foi importante para sua vida. Caroline lhe respondeu afetuosamente, dizendo que entendia perfeitamente, não havia motivos para se desculpar, e lhe retribuiu sinceramente os votos.
Passados dois meses, Pierre não enviou qualquer mensagem. Caroline fez aniversário, tampouco recebeu uns parabéns do amigo. Mais quatro meses se foram, ela estava vivendo uma série de problemas pessoais, a avó que lhe criara acabava de falecer. Escreveu a Pierre uma longa mensagem que lhe tomou uma noite acordada, contando todas as suas angústias, chorando a cada palavra digitada. Enviou pela rede social, mas já faz um ano que Caroline aguarda resposta.
João Paulo vivia um relacionamento muito complicado, todos percebiam que sua namorada parecia se envergonhar dele na presença dos amigos. O rapaz, no entanto, continuava a mendigar a atenção daquela que pouquíssima lhe dedicava. Mas tal assimetria não lhe passava despercebida e o desprezo lhe doía enormemente. Como consolo, procurava uma querida amiga, Mayara. Com ela confessava suas angústias e pedia opinião, sabia que a moça era sincera e com ela compartilhava seus dramas e músicas sertanejas. Quando enfim terminou um relacionamento já tão desgastado, sua amizade com Mayara ficou ainda mais forte, pareciam inseparáveis. Contava à menina sobre suas pegações e ela fazia o mesmo. Tiveram bons momentos juntos e certa vez, bêbados, até brincaram com a possibilidade de um dia eles próprios se pegarem. Nunca rolou. Gostavam-se como amigos, era o que parecia, ao menos para a garota.
Mayara estava gostando de um colega de trabalho, João Paulo se envolveu com uma menina que conheceu na balada. Até aí, tudo na mais perfeita normalidade, um pedindo conselho ao outro. Ambos começaram a namorar. Mayara agia normalmente, mas João Paulo repentinamente se afastou. Nunca mais teve notícias dele, parece feliz com sua namorada, pelas redes sociais. O rapaz nunca se explicou, a Mayara só restava especular: teria o ciúme da namorada o feito trair a amizade?
Larissa e Marcelo participavam do mesmo grupo de jovens na igreja. Ela era muito ativa, ele nem tanto. Mas pouco antes de se aproximar de Larissa, Marcelo passou a assumir um monte de tarefas. A jovem as vezes se questionava se ele teria feito aquilo para chamar sua atenção. Mas buscava afastar pensamentos tão egocêntricos. Fato é que poucos meses após iniciarem namoro, ele se afastou da igreja alegando estar muito atarefado. De fato, ele assumia muitos compromissos, e muitos hobbies aos quais atribuía status de compromisso.
Com cinco meses de namoro, Marcelo pediu Larissa em casamento, ela achou precipitado. Sua vida estava um caos, acabava de assumir um emprego, após uma demissão que não deixou de ser um pouco traumatizante e fato era que se encontrava muito infeliz com seu novo trabalho. Na igreja, buscava algum conforto para sua angústia, e em Marcelo também, por um tempo... O papo de casamento se mantinha, assim como as ligações telefônicas diárias. Larissa não gostava nada de falar ao telefone, preferia estar junto de seu namorado, que cada dia alegava estar mais atarefado. Ela lhe comunicou isso. Ele passou a ligar menos e a encontra-la ainda menos. Já sentia que não havia sequer um namoro de fato entre os dois, e Larissa se perguntava “Como pode nessas condições querer falar em casamento? ”. Ela dava muito valor ao casamento e aquela banalização lhe soava quase como uma blasfêmia. Mas não durou muito.
De repente, o que era quase diário, ou espaçado por no máximo dois dias, desapareceu por duas semanas: Marcelo parou de telefonar. Larissa se sentiu triste, decepcionada, sabia que com quase um ano de namoro, a relação estava desgastada, mas não esperava aquilo. Não resistiu e ligou para ele perguntando se queria terminar ou o que diabos havia acontecido para merecer tão longo silêncio. O rapaz contornou, disse que estava sem tempo, muito ocupado e por isso não estava fazendo as ligações, pediu para se encontrarem e conversarem. Ela pediu que Marcelo a telefonasse no próximo final de semana para marcarem. Na verdade, queria testá-lo. Ele não ligou.






                                                                              Mariana Penna, 2016. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O pastor e os ateus


Setembro de 2013: Há cerca de 6 meses uma centena de famílias sem casa própria ocupava um terreno abandonado por uma empresa na grande BH, em Contagem.
Setembro de 2013: um grupo heterogêneo de apoiadores locais organizou um encontro e convocou vários grupos para participarem, alguns de outros estados inclusive, a fim de ampliar as bases de solidariedade para com aquela luta por moradia.
Educação libertária, luta antiprisional, anarquismo social, feminismo, ecologia, dentre outros temas, constavam da grade do encontro. Além disso, mesmo excluído do cartaz do evento, estava programado também um culto religioso. “Um culto?”, questionavam os convidados aos organizadores do evento, que apoiavam a ocupação sem, contudo, serem moradores. “É, um culto, mas ninguém precisa ir, é uma coisa mais deles” – respondiam referindo-se aos moradores da ocupação. E acrescentavam dizendo ser possível até aproveitar o horário do culto para discutir articulação política entre as organizações e movimentos presentes.
- Mas tem certeza que não vai ficar feio se a gente não for? – perguntou uma militante vinda da Bahia.
- Não – respondeu o apoiador – eu pessoalmente nem me sentiria bem, pareceria hipócrita da minha parte, afinal sou ateu, como um monte de gente aqui.
Com isso, o impasse parecia resolvido, ao menos para os militantes. Já o pastor e moradores envolvidos na organização do culto, contavam ainda com a presença dos visitantes. Em verdade, aquele culto havia sido pensado justamente para recebê-los. Mas os anfitriões teriam esperado sozinhos e em vão, não fosse uma eventualidade nada agradável ter abalado a relação entre os moradores e aqueles forasteiros em tempo recorde. Um grupo, que se considera uma espécie de vanguarda artística radical, colocava em prática seu “pornoterrorismo”, performances sexuais extravagantes, escatológicas e muitas vezes violentas, realizadas mesmo à luz do dia e em qualquer lugar da ocupação, aos olhos de quem circulasse no meio.
A tensão era evidente, moradores reclamavam, sentiam-se afrontados, e muitos militantes arrancavam os cabelos sem saber o que fazer para controlar os “radicais estéticos”, ou ao menos para evitar serem confundidos com eles. O pastor reforçou o convite para o culto. Dado o contexto, quando este não estava mais presente, o assunto voltou a circular nas conversas daquela gente que desejava mudar o mundo:
- Vamos para o culto! É o mínimo que podemos fazer nessa situação para aliviar um clima tão pesado e amenizar o desconforto que essa galera provocou aos moradores! - insistia a militante da Bahia.
- Também acho! – concordou um militante de SP, quem, seguido por companheiras e companheiros de MG, RJ e SC, passou a discutir os termos dessa participação. Em decorrência, ficou claro que ninguém precisaria simular crença, orar, rezar, nada disso, apenas estariam presentes em respeito aos moradores.
Era a hora do culto, foram todos para a praça construída pelos ocupantes. O pastor e várias senhoras organizavam os bancos improvisados para receber os visitantes, que aos poucos iam se acomodando em formato de meia lua.
Todos sentados, o pastor começa seu sermão:
- Queridos amigos, irmãs, irmãos e convidados de vários lugares do Brasil, eu gostaria de começar esse culto fazendo a vocês a seguinte pergunta: quem aqui acredita em Deus?
Todos os moradores ali presentes levantaram as mãos, dentre os militantes, a maioria com as mãos abaixadas. Estes últimos olhavam entre si, desconfortáveis. Alguns, internamente, se questionavam pensando que merda estavam fazendo ali. Outros olhavam para baixo, sem saber se permaneciam ou iam embora por medo do que mais poderia vir daquele culto para o qual vieram um tanto a contragosto. Em suma, o desconforto era geral entre os militantes, mas esta tortura durou poucos segundos, e o pastor continuou:
- E, agora, eu queria perguntar a vocês outra coisa: quem aqui acredita no amor, na força do amor para mudar as coisas?
De imediato, todas as mãos se levantaram. Houve uma quebra da ordem anterior e, assim, moradores e militantes agora se viam e se confraternizavam institivamente com alguns olhares simpáticos e sorrisos, ainda discretos. O pastor continuou, mirando especialmente os visitantes:
- Pois bem, meus amigos, o que vocês chamam de amor, eu chamo de Deus, de Jesus Cristo. Sendo assim, nós todos acreditamos na mesma coisa, nós todos estamos unidos numa mesma luta para mudar o mundo, para mudar a realidade injusta. Meu Deus disse que só há dois mandamentos: amar a Deus, que como eu disse, para mim é o amor, e amar ao próximo como a si mesmo. Por isso, meu Deus não quer o ódio, a intolerância, ele quer a união, o respeito, o amor. E a religião em seu sentido original é isso, é religar. Religar as pessoas a Deus, ao amor, e assim religar as pessoas entre si. Por isso, irmãs, irmãos, companheiras, companheiros, eu convido a todos vocês para a comunhão.
Nesse momento, algumas senhoras se levantaram e, seguidas pelos olhos curiosos dos convidados, foram e voltaram carregadas de bandejas e cestas com frutas e pães. Enquanto elas traziam alimentos, o pastor dava prosseguimento ao culto:
-Vamos agora comungar, ou seja, dividir, colocar em comum esses alimentos, esses frutos da nossa terra, esses frutos do trabalho humano. E aproveito, nesse momento, para lembrar que tanto cristãos como os companheiros da militância comungamos, cada um a sua maneira. É só lembrar o significado da palavra companheiro que vocês usam para chamar uns aos outros, não é? – perguntava enquanto lhe sorriam alguns companheiros de militância – Companheiro é aquele com quem a gente divide o pão. Assim sendo, convido a todos para comungar como irmãos e compartilhar como companheiros.
Inflamados de alegria, cristãos, socialistas libertários ou estatistas, todos sorriam, se cumprimentavam e comiam o que as moradoras lhes ofertavam.  O tensionamento se foi. Ali, eram uma comunidade. Os militantes sequer se incomodaram quando indivíduos da “vanguarda artística” passaram por eles com olhares jocosos, debochados. Já não importava, estavam em paz; estavam unidos; estavam religados; estavam em religião, ateus, agnósticos e cristãos.   





                                                                                 *Baseado em fatos reais.
                                                              ** Dedicado ao pastor Isaías da Ocupação Guarani Kaiowá.
                                                                                    


                                                                                                  Mariana Penna, 2015

sábado, 9 de maio de 2015

Ela não é fofa




Ela é uma mulher incomum, eles sabem disso.
Ela é independente, tem seu trabalho, mora sozinha, paga suas contas.
Ela é consciente, militante, sabe discutir política e se exalta como homem na mesa de bar.
Ela zoa, ela bebe, não abre mão de um bom rolé e nem por isso deixa de cumprir suas obrigações e compromissos de trabalho e militância.
Ela é foda, eles sabem disso.
Ela é livre, sabe separar sexo de sentimentos.
Ela é desinibida, fala de putaria como quem fala do cardápio do almoço.
Ela é transparente, parece não guardar segredos
Ela é amiga e sempre se dispõe a ajudar quem precisa.
Ela é animada, leva todo mundo para a bagunça.
Ela é divertida, ela é escrachada, é sem pudor.
Ela ocasionalmente se permite viver amizades coloridas.
Ela é foda, ela é chapa, ela é brother. Eles sabem disso, principalmente quando estão solteiros.
Ela é corajosa, anda em qualquer beco pelas madrugadas.
Ela é destemida, mesmo depois de uma bebedeira, sempre volta sozinha para casa.
Eles gostam disso, de uma mulher que não exige cuidados especiais nem proteção.
Ela é responsa, ela é foda.
Ela tem um jeito forte, não veste roupas sensuais, é um pouco bruta talvez. Eles elogiam isso, afinal ela é profunda, mais intelecto do que carne.
Ela é despojada, não é fútil, não fala sobre, nem se ocupa com depilação, batom, perfumes, esmaltes, maquiagem. Eles acham ela um exemplo de mulher e questionam porque as outras perdem tanto tempo com essas “bobeiras”.
Ela é foda, é responsa, é brother. Eles sabem disso, mas elogiam com o olhar as meninas mais delicadas, arrumadas, perfumadas e femininas.
Ela faz sexo quando quer, não se faz de princesa, nunca fez charme de negar no primeiro encontro.
Ela é “prafrentex”, parece não sentir ciúmes, não ter mimimi. Eles sabem disso e não se sentem inibidos em apresentar a padrão panicat super arrumada pras amizades, pouco depois de uma noite de prazeres com sua amiga foda, sem sentimentalismos, nem testemunhas. Eles sabem que ela não se afeta, afinal, ela é foda, ela é chapa.
Ela é forte, eles pensam que ela é coberta de aço, intransponível à dor, parecem ignorar que ela tem sensibilidades e sentimentos. Ela é foda, mas no seu raro tempo livre se emociona com filmes românticos.
Ela é foda, eles sabem disso, mas ela não é fofa.

Mariana Penna, 2015.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Adeus, muso!


Mais um dia de trabalho. Atender telefonemas e papéis... papéis para todo lado: históricos escolares, comunicações de faltas aos responsáveis, encaminhamentos ao conselho tutelar, notas para serem lançadas e tantos outros que no momento já nem se lembrava. Quem diz que trabalho de secretaria é fácil, não sabe do que está falando. A menos que se faça um trabalho porco, essa função burocrática dá realmente muita canseira... e estresse! Mas, no fundo, não tinha do que se queixar. Primeiro porque tinha um bom emprego, se comparado com a maioria das pessoas que conhecia. Talvez o melhor entre seus parentes. É certo que seu primo Davi tinha um rendimento bem mais significativo com seu trabalho em marcenaria, mas Suzana trabalhava seis horas por dia e tinha a tranquilidade de não temer os avanços da concorrência. Seus ganhos e seus gastos eram perfeitamente previsíveis, não tinha muito porque reclamar se comparada às outras mulheres da sua família: donas de casa, empregadas domésticas, manicures e cabeleireiras. Suzana tinha o que nenhuma delas havia conseguido ainda: independência.
Desde os 21 anos, seis meses após conseguir esse emprego, a jovem rumou para uma quitinete próxima ao trabalho. Foi juntando uma graninha e com o passar dos anos e dos modestos triênios, conseguiu comprar uma casa no morro logo atrás. Era uma casa simples, mas era sua, toda e somente sua! Preferiu morar mais perto do trabalho do que da família, não que não gostasse de sua família, muito pelo contrário, mas não queria ter sua vida controlada, especialmente sua vida sexual. Tinha 35 anos agora, solteiríssima e satisfeita com isso, não sabia até quando, mas até o momento estava bem.
Nem sempre sua casa estava limpa e arrumada. Decerto que nunca estava completamente limpa ou arrumada. Mas havia algo de encantador em sua decoração, algo que fazia Suzana sentir-se a vontade e tranquila tão logo abria a porta e adentrava seu confortável abrigo. A grande paixão de Suzana era o desenho. Ainda na escola gostava de rascunhar em seus cadernos as obras visuais da sua imaginação. Não à-toa foi censurada e advertida algumas vezes no meio das aulas por sua atenção desviada. Preferia as aulas de geometria, já que as de artes nunca lhe serviram para aprimorar a sua própria arte. Atualmente já quase nem lembrava do que aprendeu naqueles cursos inexpressivos. Já as aulas de geometria lhe serviram para expressar melhor as profundidades nos desenhos. Ela se lembrava bem do dia em que a paciente professora de geometria, ao lhe flagrar desenhando no meio da aula, ao invés de lhe advertir, lhe deu dicas para melhorar as noções de perspectiva. Boa gente aquela senhora, se perguntava como ela deveria estar nos dias atuais... certamente aposentada, pois já seria idosa.
Apesar de desenhar muito, não era de mostrar suas artes para ninguém. Era como um pequeno tesouro particular. Lhe entristeceria que outro não apreciasse o fruto do seu trabalho, por isso, seus desenhos, tal como sua casa, eram só seus. E assim, ambos se completavam. Cada novo desenho que ela fazia e que julgava digno, ia para a parede. E como seus desenhos expressavam sua vida, seu estado de espírito nos mais variados momentos, sua casa era como que uma autobiografia pictórica.

Chegar em casa se tornava um ritual sublime. Suzana olhava para aquelas paredes repletas de desenhos, como quem olha para o mar, ou mesmo para uma imagem de um santo. Entrava num estado de desapego corporal, uma espécie de mergulho na mente, quando você pouco se dá conta de que há algo para além de seu pensamento, assim, se envolve de tal forma, que caso esteja andando na rua, isto pode lhe proporcionar um belo de um tropeço. Mas dentro de casa, de frente para o mar ou sentada em uma igreja, não há este risco. Quase não abria as janelas de casa, pois sentia que ali dentro havia mais inspiração para sonhar acordada do que a vista de fora poderia lhe proporcionar.
E sonhar acordada era uma diversão recorrente, até quando estava fora de seu templo pessoal. Estava então bem aérea naquela terça-feira, quando chegou ao trabalho. Antes mesmo de se aproximar da secretaria foi surpresa por uma figura masculina que parecia ter saltado diretamente de seus sonhos para a realidade. Tratava-se de Flávio, ajudante de pedreiro que estava trabalhando na reforma da biblioteca. Após cumprimenta-lo e depois de discretamente perguntar aos colegas de quem se tratava, Suzana passou o dia a ter seus pensamentos invadidos pela figura do estranho. Tornou-se uma fantasia, um fetiche que ela precisava materializar.
Nos dias seguintes caprichou mais no visual, buscou situações para puxar assunto, e, chegada a famigerada sexta-feira, sacou toda sua capacidade cara-de-pau bem do fundo do espírito e chamou o belo moço para sair. Avaliava grande a possibilidade de um toco, mas aprendera, não fazia tanto tempo, que o “não” já se tem antes da pergunta, o “sim” só se alcança quem se dispõe a arriscar. Portanto, não há nada a perder ao assumir essa lógica. Ela assumiu, e ganhou. Foi para casa, se arrumou com todo o cuidado que a situação exigia. Encontrou-o no início da noite no bar combinado. Ele estava claramente tímido, ela também, mas sabia que era necessário disfarçar, o humor ajudava. Sentaram numa mesa de dois lugares. Flávio pouco falava, parecia nada a vontade... normal. O desconforto diminuía conforme iam baixando as garrafas de cerveja, e assim o belo e reservado rapaz se abria pouco a pouco com a ajuda da bebida que não sendo propriamente dionisíaca, tinha em seus efeitos o explícito parentesco com àquela que provia as bênçãos sagradas do deus grego. E o resultado foi uma linda noite. Mais que um sexo casual, as paredes da casa de Suzana testemunharam o encontro de duas pessoas, que antes estranhas, passavam agora a conhecer aspectos significativos uma da outra. Flávio admirou, com raro apreço, suas paredes decoradas, perdeu minutos e minutos observando cada desenho, com sincera dedicação. Elogiou-os com honestidade e Suzana sentiu uma satisfação dificilmente descritível em palavras. Seus desenhos eram como uma expressão exterior da autoimagem que ela produziu, saber que outras pessoas os estimavam, era sentir-se ela própria um ser digno de valor.  
E um caso amoroso com uma dinâmica um tanto quanto fluida se seguiu àquela noite. Suzana não tinha previamente nem queria depositar expectativas, mas sentimentos surgem quando menos se espera.
Os meses que seguiram àquele primeiro encontro foram regados de ânimo e uma disposição enorme floriu a vida da moça. O trabalho parecia mais agradável e ao chegar em casa ideias novas estimulavam as mais belas criações artísticas. Sentia que desde que começou a se relacionar com Flávio, seu ânimo para desenvolver coisas interessantes era outro. Entendeu concretamente, pela sua experiência, porque pintores e escritores buscavam tão ardorosamente por suas musas. Percebeu que, por mais fluido e sem perspectiva pudesse ser aquele relacionamento, uma coisa de fato Flávio lhe proporcionava: inspiração.
Mas o amante que nada lhe cobrava e nada lhe exigia, por outro lado não era do tipo que muito dividia. Se no encontro inicial o fator etílico lhe permitiu abrir-se em algum grau, com o passar do tempo, o silêncio disfarçado em sorrisos e em algumas poucas palavras carinhosas deu a tônica da pretensamente leve forma de agir do rapaz. Mas era uma “insustentável leveza” que o tempo foi revelando. E ela percebeu que qualquer que fosse o inferno que ele carregava por dentro, Flávio o guardaria tão somente para si. Ele não estava disposto a se expor, nem em quadros, nem em poesias, nem em palavras simples numa conversa de bar. Ele era um mistério, talvez para si mesmo. Seria isso o que havia nele que tanto a inspirava? Não houve tempo hábil para tirar a prova real. Um belo dia, ele sumiu. Já fazia tempo que a obra na escola havia sido concluída, portanto, ele não precisava mais passar por lá. Não respondeu mais as poucas e ocasionais mensagens que Suzana enviava. Ela não fez nenhuma questão de insistir em contatar quem já não desejava seu contato. Ele tinha seu endereço, telefones e perfis em redes sociais, mas não quis lhe procurar.
Resignar-se é um ato de sabedoria frente o imutável. Suzana soube agir assim. Mas o vazio veio, um vazio horrível de aceitar, principalmente porque o pior efeito do vazio foi levar todo e qualquer resquício de inspiração para algum lugar bem distante onde Suzana não podia mais alcançar. Ficou triste, mas não uma tristeza desesperadora, foi uma tristeza típica da desilusão, do desencantamento. Meses e mais meses se seguiram, pegava o lápis, olhava para o papel, olhava para o teto e até para os outros desenhos, mas nada, nada de ideia. Forçava reproduzir qualquer natureza morta do ambiente, mas ficava horrível. Desistiu.
...
Faltava pouco para fazer um ano desde que se comunicou pela última vez com Flávio, pensava bem menos nele. Dedicava-se com mais entusiasmo aos amigos e ao trabalho. Era sábado, dormia, não precisava de despertador, pois não teria nenhum compromisso. Abriu os olhos e percebeu que, por mais que a cortina cobrisse, a luminosidade externa era intensa. Preguiçou mais um pouco na cama, mesmo sentindo-se completamente descansada e despreocupada. Esticou-se e rolou calmamente de um lado para outro. Era tudo tão confortável, sentia-se tão confortável! Pensava que seria de manhã e como se surpreendeu ao ver 14:03 no relógio do seu celular! Mas não havia razão para desesperar, não tinha nenhum compromisso, assim, logo relaxou. E antes de tomar um café, arrumar a cama, ou mesmo lavar o rosto, pegou uma folha bem grande, e pôs a desenhar formas e figuras que remetiam de muitas e variadas formas ao seu recente caso de amor. O bar se misturava aos quadros de sua parede que eram levados por um mar de cerveja derramada de uma mesa para dois e que se transformava em seu lençol a cobrir, na cama de casal, um copo vazio. Ao lado, na mesinha de cabeceira, um bilhete sobre o qual um lápis repousava: “Adeus, muso!”. Já era tarde da noite quando após algumas pausas para fazer refeições, Suzana concluiu o desenho. Olhava-o diversas vezes com orgulho. “Ficou definitivamente lindo!”, pensava.
Nas semanas que se seguiram, Suzana sentia uma vontade absurda de desenhar e começou a fazer isto toda vez que chegava em casa. Os temas os mais variados, os resultados quase sempre a satisfaziam. Concluiu que, enfim, havia chegado a hora, fez cópias de todos os desenhos e com eles criou uma espécie de caderno, tipo esses que os tatuadores usam para sugerir opções de tatuagens. Era uma quinta-feira, sabia que a professora de artes estaria na escola. Chamava-se Daniele, e era uma professora jovem e muito entusiasmada, Suzana gostava de conversar com ela, pois tinha uma mente aberta e um repertório imenso de papos. Na hora do intervalo, ela tomou coragem, chamou Daniele para a secretaria e lhe mostrou o caderno. A reação positiva da professora, empolgou-a de tal forma que permitiu que a colega mostrasse seus trabalhos para os outros professores e funcionários da escola. Foi o assunto do dia! Muitíssimo elogiada, Suzana recebeu o apreço dos colegas de trabalho como o maior presente que alguém poderia ganhar. Na semana seguinte, Daniele lhe propôs um desafio novo: apresentar alguns de seus trabalhos numa feira de artes com os alunos das turmas em que a jovem professora lecionava. A secretária topou e assim abriu seu mundo privativo para toda a comunidade escolar. Foi emocionante ver tantos adolescentes elogiarem e comentarem seus quadros. 
Mariana Penna, 2015.