Talvez eu precise voltar a escrever. Será chegado o tempo de retomar a transformação de sentimentos em letras, palavras, frases? Talvez eu já tenha adiado por muito tempo.
É certo que careço de tempo. Tempo, esse recurso tão
limitado, talvez o mais escasso de todos. Se bem que outrora eu tinha mais
tempo. Mas nada, nada de antes pode me fazer almejar o que se passou. Eu não
tinha o que agora é de longe o aspecto mais relevante e preenchedor da minha
existência. Eu não tinha meu filho: a criatura mais linda, mais perfeita de
forma que eu jamais poderia imaginar que viria a existir.
Desde que ele veio ao mundo, 3 anos atrás, tudo mudou. Em
verdade a mudança veio antes: a pandemia, o isolamento, a interrupção da vida
extrovertida que eu levava. Precisei me voltar para dentro como nunca. Talvez tenha
me voltado tanto para dentro nos últimos anos que encontrei algum vazio. Eu
tinha consciência de quem eu era, ou do que pensava ser antes de ser mãe. Eu
tinha uma sensação de ser virtuosa, era o funk do “sou foda” que soprava no meu
ouvido, mas acho que no fundo tocava quase silenciosamente um “sei não”. Hoje o
“sei não” estronda como um carro de som cujo grave faz tremer vidros: “sei não”.
Por vezes até acho que sei e esta resposta não é nada confortável: não, você não
é, nem nunca foi nada de especial. A excepcionalidade que eu tanto almejava
nunca existiu de fato e era por isso que eu buscava tanto no que me é externo
uma comprovação: “diga que eu importo, por favor!”.
Depois de olhar para dentro, fui vendo o que eu não podia
ver: é, eu nunca fui tão importante assim. Eu me ocupava de forma abnegada das
tarefas de militância política, sem receber um tostão por nada daquilo, apenas
gastando do meu próprio bolso. Mas se engana quem pensa que era algo totalmente
desinteressado. Havia interesse, tudo é por interesse, não nos enganemos. Eu
queria ser amada, eu queria ser importante, eu queria aprovação, queria me
sentir imprescindível.
A vida e as minhas necessidades foram me afastando de quem
eu era. No fundo eu sabia que não queria parar ali. Mais um nível de instrução,
mais um título, buscar um emprego melhor, longe das amarras e dos julgamentos
dos outros, eu me afastei. Mas não apenas me afastei, eu fui afastada,
esquecida, para pessoas com quem passei anos discutindo revolução e um mundo
perfeito de paz, harmonia, igualdade e liberdade, eu não era muito mais do que
um instrumento para reforçar esta crença que aplaca as angústias da alma ao se
sentir ocupando o cantinho dos bons na luta do bem contra o mal.
O mal sempre está no outro, não é?
Pois bem, encontrei o mal em mim e, em muitos sentidos,
descobri que o mal não era bem o que eu pensava, que a realidade era muito mais
complexa do que pintávamos no jogo de mocinhos e vilões. Não existe solução
fácil e, talvez, não existam de fato soluções para seres tão pequenos. E me vi
pequena, pois sou pequena de fato. Anos e anos de militância certamente
exerceram menos impacto histórico que uma canetada de algum vereador no
interior do país.
Doeu? Talvez. Acho que o ostracismo doeu mais. No fundo
havia um desejo adolescente da criança que sofreu bullying de encontrar a sua
turma, encontrar os seus chegados, pessoas com quem compartilhar. Compartilhar
inclusive um sentimento de pertencer ao time dos bons. Mas passou, eu acho.
É bom ter a real dimensão da minha relevância humana e
histórica: sou imprescindível para o meu filho, sou importante para minha
família e para poucos amigos que ainda lembram de mim quando me retirei dos
holofotes. E só. Mas isso é muito.
Porém, passado esse tempo de autoisolamento e de ostracismo,
sei com certa precisão quem não sou mais. Porém, pouco sei sobre quem sou,
sobre o que de fato desejo e o que quiçá seja mera ilusão. Não sinto muitas
vontades, ou sinto vontades que não sei nominar. Só sei que retornar a quem eu
fui, agora, está fora de questão. Toda vez que tentei isso recorri em erros,
alguns erros horríveis, dos quais me arrependo.
Mas acredite, apesar de parecer terrível, e em alguns
momentos doer, saber que não sou em nada especialmente virtuosa, não ter mais
nenhum herói em quem me inspirar, sentir-me absolutamente insignificante para a
sociedade, traz um conforto nada desprezível.
Mariana Affonso Penna, 2025.