terça-feira, 25 de dezembro de 2018

De mãos dadas



Certa vez um estrangeiro, que eu acabava de conhecer, quis pegar a minha mão. Uma ação de apreço, mas que gerou significativo desconforto. Parecia leviano. Expliquei que no Brasil as pessoas transam, mas não andam de mãos dadas. Andar de mãos dadas implica algo muito maior. É um reconhecimento, uma expressão pública de afeto. É igualar-se ao outro. A hierarquia despreza essa ação. Como revela um famoso quadro de Debret, nas calçadas do período colonial, o homem andava na frente, seguido em fila pelos filhos, pela mulher e serviçais. Andar de mãos dadas, ao contrário, equaliza, e mais que isso: une, afere respeito, reconhecimento. Não à-toa é o sonho de todo aquele que se encontra em desvantagem no mercado afetivo. À mulher feia é garantido o sexo – de qualidade duvidosa. Andar de mãos dadas é uma aspiração muito mais difícil de se ver satisfeita.
Dar as mãos significa mais que colocar-se lado a lado. Duas pessoas circunstancialmente juntas andam lado a lado. Duas pessoas que escolhem traçar um caminho comum, dão-se as mãos. Plínio e Anderson caminhavam de mãos dadas na Avenida Paulista. Casados há 4 anos, unidos há 7. Discriminados por parte da sociedade, naquele ato reconheciam a dignidade um do outro e orgulhavam-se publicamente daquilo que compartilhavam. O Ódio, não pode mais escondê-los do mundo como faz o homem fútil com sua ficante gorda. Assim sendo, deseja eliminá-los. Uma facada no peito separou para sempre as mãos de Plínio das de Anderson. Vida, planos, projetos compartilhados: foram todos ceifados. À barbárie por cima legitimada, segue-se o luto e a luta. É por eles, pelos enjeitados da sociedade, pelos que têm sua existência transformada em piadas, que “ninguém solta a mão de ninguém”. Desafiar a lógica do desapego, apegando-se voluntariamente um ao outro. Virou um lema. Alguns criticam, talvez seja mais um discurso que uma prática, talvez diferentes interesses impliquem exclusões, mas é um símbolo e símbolos têm poder. As mãos dadas têm poder.
Mariana Penna, 2018.




terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Miragem


A jovem caminhava rápido. Nas mãos um mapa impresso do Google Maps com a rota a ser seguida até seu destino. Estava muito adiantada em relação ao horário marcado, ainda assim, temia se atrasar. Suas mãos suavam frio. Conferia em seu mapa duas a três vezes o nome da rua para ter certeza de que estava certa antes de virar. Estava perto do destino, mas continuava a andar apressada. Chegou. Faltava quase meia hora. Não podia se apresentar antes do combinado, sentou no banco do ponto de ônibus. Tentava se acalmar, bebia uma água, mas a percussão da bomba cardíaca não parava de soar. A espera chegou ao fim: 10 horas em ponto. Foi para a portaria do prédio, precisava digitar o número do bloco e do apartamento seguido de asterisco no interfone. Tremia, mas concluiu essa missão. Ele atendeu... tinha uma voz simpática e suave. Ela se identificou e o homem pediu que subisse. Encontrou-o à porta. Ao recebê-la, antes de beijar-lhe o rosto, segurou suas mãos. A jovem sentiu-as delicadas, assim como lhe pareceu suave seu rosto ao encontrar-se com o seu. Se do ponto de vista visual a flacidez da pele idosa não é normalmente considerada agradável, no aspecto tátil, sua textura se faz bastante aprazível, sendo possivelmente mais afável ao toque a pele macia de um idoso à consistência rígida da pele jovem. Denilson a conduziu até a sua sala. Ela sentou-se num sofá, ele numa poltrona. Entre eles uma mesinha de estar.
- Tudo bem, querida? Pode me mostrar os trabalhos?
Um gelo na espinha e o pensamento automático dizia: “estúpida! ”. Olhou para seu interlocutor, envergonhada, e desculpou-se pelo lapso.
- Sem problema, mas é que são tantos textos que recebo por e-mail que fica inviável imprimir. Dou uma olhada por alto, mas não dá para registrar o conteúdo de cada um, entende? Por isso eu precisava que você tivesse trazido uma cópia impressa para mim.
“Burra, burra, burra! ”, que pesado era o arrependimento por essa mancada. Seu amigo havia dito para não chegar de mãos vazias, ela ignorou, e agora lá estava sem nada para mostrar. Pensou no quão ocupado devia ser o famoso escritor e quanta sorte ela teve ao conseguir marcar uma reunião! Ela, uma simples mortal, e Denilson a recebia agora, em sua própria casa! Parecia um sonho estar ali, de frente para seu grande ídolo. Mas a jovem tinha que estragar tudo, era tão óbvio que precisava ter trazido os textos, como não pensou nisso antes!
- Esta reunião é como uma consulta médica, não posso dar um diagnóstico sem poder verificar antes os exames – disse o escritor em tom amigável, como um afago de consolo – Se a paciente esquece os exames, precisamos marcar uma nova consulta, ok? Mas podemos ir conversando sobre os sintomas enquanto isso, pode ser? – disse Denilson, aliviando o desconforto da jovem.
O escritor falou com tamanha simpatia que tudo que ela pensava era: “Os céus devem estar sorrindo para mim, isso não pode ser real! ”. Era bom demais para ser verdade e, passado um pouco o nervosismo, começou a falar sobre seu romance, seus contos e poesias. Não é que se sentisse verdadeiramente à vontade, era difícil estar na posição de uma mortal diante de um deus, mas Denilson facilitava muito as coisas, não falava como um mestre e sim como um colega. E mais, ele parecia realmente se interessar. A jovem levantava questionamentos, ouvia e anotava. Provavelmente a origem humilde do célebre autor o permitiu escapar da arrogância tão típica do meio, pensava ela. Mas era um deus, ela não podia evitar sentir dessa forma, e estar em sua casa era como ter sido convidada para visitar o Olimpo.
Despediu-se, novamente tocou as mãos suaves, o agradeceu em verbo e com os olhos. E os dele eram tão gentis, que a fizeram sorrir. Saiu leve, seu dia estava ganho. Era mais do que ela podia imaginar, e nem sua falha grave lhe tirou a oportunidade. Só podia ser um sonho, pela primeira vez na vida parecia que tudo poderia dar certo, que não haveria limites à realização de seus desejos. O mundo estava lindo, o sol brilhava de outra forma, o vento acariciava, não havia incômodo, tudo era aprazível. Em um mês o veria novamente. Era hora de organizar bem tudo o que tinha produzido e aguardar ansiosa.
A rotina já não a incomodava, nem mesmo as dondocas das mães da escola particular primária em que trabalhava lhe destruíam o humor. O foco era a próxima reunião com Denilson, nada mais importava, todo o tempo que lhe sobrava era dedicado a isso, queria dar uma boa impressão.
Um mês se passou, mesma hora, mesma rua, mas agora era uma sexta-feira.  Escolheu uma roupa discreta, mas que lhe caía bem, colocou seu perfume favorito, saiu com a mesma antecedência de antes. A ansiedade não era menor que a da visita pioneira. Mais uma vez estaria de frente a seu grande ídolo. Trazia pastas e mais pastas debaixo dos braços, já não consultava tanto os mapas. Vacilou ao virar uma ou duas ruas, mas em geral a memória não lhe falhou. Pensava no quão simpático Denilson lhe tinha sido no último encontro e um sorriso emocionado lhe acompanhava o pensamento.
Chegou cedo novamente, mais uma vez as mãos suadas aguardavam no ponto de ônibus.
10 horas, tocou a campainha. Sua voz agradável pediu para aguardar. Desceu até o portão do prédio, o mesmo sorriso, as mesmas mãos suaves, mas agora desculpou-se pelo inconveniente: era dia de faxina – disse – e convidou-a para um café na esquina.
Dois expressos, sem açúcar apreciavam ambos. Ela apreciou também esta coincidência, sentia-se em alguma medida a ele semelhante. Acomodados, se entreolharam e ele prontamente interrompeu o brevíssimo silêncio:
- Então querida, dessa vez trouxe os materiais, não é? – perguntou em tom amigável enquanto olhava para as pastas que ela carregava consigo.
A jovem confirmou sorrindo discretamente e Denilson continuou:
- Na Grécia Antiga, os médicos percebiam no olhar, nos traços e expressões faciais das pessoas os sinais de saúde ou doenças que a estes correspondiam. Nós já não temos essa capacidade dos gregos antigos, se eu tivesse, olhando assim para você, daria certamente um parecer favorável, mas como estamos na era dos médicos modernos, precisamos ver os exames para diagnosticar. A mesma coisa é com a produção textual de uma jovem escritora, preciso ter em mãos a expressão do que se passa na sua cabeça transformada em letras, palavras.
Como uma adolescente frente à primeira declaração romântica recebida, ela se emocionou ao mesmo tempo em que se perguntava se ele dizia isso para todas as pessoas, se era sua forma de ser agradável. De qualquer forma, se a intenção do escritor era elevar-lhe a autoconfiança para tornar mais agradável aquele encontro, surtiu o efeito planejado.
Começou pela pasta de crônicas, entregando para exame algumas das que tinha selecionado. Depois, poesias, por fim, o esboço dos capítulos e temas centrais a serem desenvolvidos em seu romance. A este último se ativeram com maior atenção. Cada sugestão de Denilson parecia-lhe genial e em alguma medida sentia-se ela própria genial por ser digna de receber tais comentários. Magnífica, esta seria a palavra para descrever a circunstância em que se via inserida. Não conseguia distinguir o que lhe deixava satisfeita: se era saber que seus escritos valiam alguma coisa ou se era pura e simplesmente o sentimento de reconhecimento. Terminada a longa conversa e repleta de anotações, despediu-se mais uma vez de seu ídolo. Sentiu novamente a suavidade de suas mãos e o toque aveludado de seu rosto. E ele, ao despedir-se dela:
- Querida, não deixe de me enviar o texto final de seu romance. Será certamente um belíssimo trabalho e de leitura aprazível.
Mais uma vez saiu flutuando. Não caminhava, flutuava por entre as ruas. Não respirava, inspirava e expirava leveza. As cores vicejavam com uma exuberância nunca vista. Tocava as folhas dos arbustos e plantas que cruzavam seu caminho. Sentia e agradavam-lhe as texturas de cada folha, caule, pétala. Foi para casa satisfeita.
Por um ano e meio, entre trabalho intensivo e momentos de procrastinação, concluiu o romance tão amado. Não se sentia insegura em relação a ele. Desfrutava com orgulho cada capítulo. Por vezes, quando relia, nem podia acreditar que um trabalho daquela qualidade fosse fruto de sua própria mente. Era chegada a hora de remeter àquele a quem foi seu mestre e muso inspirador. A cabeça imaginativa não parava. Imaginava-o lendo deslumbrado. Visualizava mentalmente Denilson apertando forte a sua mão e dizendo o quanto ficou surpreso e satisfeito, que se tratava de uma obra da mais alta qualidade, que sua publicação, que sua publicização era imperativa! E foi sonhando acordada que redigiu o e-mail informando ao escritor tão admirado sobre a conclusão de seu trabalho. Mal podia esperar pela resposta!
Passaram-se 2, 3, 4, e no quinto dia Denilson respondeu. Desculpando-se pela demora, pediu-a que o rememorasse sobre o que se tratava a história. Afinal, eram muitos jovens escritores que lhe pediam aconselhamentos. Leu atônita a mensagem. Não a sentiu como um balde de água fria, mais parecia um mergulho no Oceano Ártico. Engoliu seco e conteve as lágrimas. Como boa brasileira, a esperança só pode morrer por último, assim focou-se no trecho final da resposta do famoso autor, no qual pedia que enviasse uma cópia para sua apreciação.
Não quis esperar, saiu de casa atarantada. A cópia já estava impressa. Uma linda dedicatória, escrita com o mais cauteloso esmero, numa letra praticamente desenhada, enfeitava a contracapa. Bastava entregá-la. Pensou em entregar-lhe em mãos. Mas refletiu se não seria inapropriado. Foi a uma agência de correios e postou com máxima urgência. Na volta para a casa, o mundo não estava tão colorido, mas sim agitado, revolto, acelerado como sua bomba cardíaca. Caminhava no mesmo ritmo, e neste mesmo ritmo lhe perturbavam os pensamentos. Acelerados, contraditórios, pintavam cenários idílicos e catastróficos em quase simultaneidade. Torceu o pé. Droga! Não era uma pessoa mística, mas não podia deixar de pensar na ideia de um mau presságio.
Foi para casa, chateada. Tomou um banho, repetiu um ritual tantas vezes praticado: chorar no chuveiro. E esperou o tempo passar.
Seis meses correram, seis meses sem nenhuma resposta. Pensava com frequência nisso, aguardava ansiosa e não desejava parecer insistente. Mas teria a entrega sido concretizada? Melhor averiguar. Insegura se esta era a melhor decisão, quis encerrar de vez a angústia. Escreveu um e-mail perguntando se a encomenda havia chegado às mãos de Denilson. Desta vez a resposta não tardou. Num curto e seco e-mail, ele afirmou que seu manuscrito foi devidamente entregue pelos correios. Um “atenciosamente” encerrou sua mensagem.
Não chorou. Só respirou em ritmo mais acelerado. Os pensamentos mudaram, esvaziaram-se em velocidade, pareciam vagar. O mundo ficou cinza. Mas amanhã seria outro dia.
O tempo passou. Três anos. Na escola primária, as mães dondocas e moralistas continuavam a lhe incomodar. As ruas continuavam muito barulhentas. Mas as vezes, quando chegava em casa, abria a estante da escrivaninha, olhava esperançosa para seu romance impresso e pensava em enviar para alguma editora aleatória, quem sabe, né? Quem sabe...
Mariana Penna, 2014-2018.



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A Bruxa



Hoje quando acordei, pela primeira vez duvidei do seu sorriso simpático. Aquele boneco de palhaço, feito de pano e madeira, sempre me olhou com ares de bondade inocente. Hoje não. Hoje ele ria de mim. Tornou-se debochado, irônico. Que metamorfose estranha pode sofrer um ser de natureza tão inerte! É o espírito! São os espíritos ancestrais que me cobram, me atormentam. Sussurram em minha mente: “amaldiçoada”, “quebradora de promessas”! E eu sei a qual se referem.
A ordem da natureza não se quebra a menos que por sacrifícios. Para alterar os rumos dos acontecimentos é preciso dar algo grandioso em troca. Assim me ensinou a matriarca, quem me instruiu nas sabedorias ocultas do universo. E foi numa madrugada como essa, motivada pelo pranto de mais uma rejeição amorosa que jurei nunca infligir a outrem a dor do amor não correspondido.
Como dói a rejeição! Ela que até então era só o que eu conhecia. Foi não muito depois que o universo pareceu se agraciar com a minha promessa. De indesejável, esquisita, sem jeito, nem atrativos, subitamente passei a angariar admiradores. E como é radiante sentir-se amada, admirada! Cumpri minha promessa e os correspondi... por um tempo.
É sufocante foçar-se a amar quando não se ama. Asfixia também limitar o amor por não poder se restringir a ele quando o quer de fato restringido. E foi assim que não paguei meu sacrifício. Rejeitei o amor que me tinham para amar aquele que me consome.
O rancor tomou conta de um dos renegados. “Bruxa!” – me acusou. Leviano, disse que usei de minhas ervas para seduzi-lo. A ele que tem esposa e filhos, a ele a quem nunca olhei com interesse qualquer. Não acuse as ervas, nem a mãe do universo! Essa é a verdadeira blasfêmia! Acuse minha fraca natureza, incapaz de respeitar a sua ordem, de cumprir com minha promessa.
Pago agora com minha vida, sou culpada! Os bispos me fisgaram a marca de nascença e me acusam de noiva do diabo. Porém a natureza não quis que eu fosse noiva de ninguém e só cabe a ela definir. A ela e a nossos acordos, se os soubermos respeitá-los. Eu não soube, logo queimarei, sou culpada, mas não do que me acusam. Queimem-me, pois quem sabe sob uma nova forma, nas cinzas que fecundam o solo, eu me harmonize melhor aos projetos da Grande Mãe!
Mariana Penna, 2018.



sábado, 20 de outubro de 2018

Desenraizamento



Foi voando com o vento, com as folhas que ele carregava. Desgarrou-se do bando, andorinha avoada. O horizonte lhe atraía qual lâmpada chama os insetos de asas. Será que morreria em sua busca? Decerto... em algum dia, em alguma parada. Porém assim também irão as outras, caçando insetos numa dança irrefletida, quiçá desvairada.  Sem buscar o horizonte que inebria, mas seguindo seu bando, seu guia. Um destino com menos glamour e encanto, mas menos solitário, menos pranto.



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Sobre Tereza



Não é nenhum segredo minha experiência de bullying durante praticamente toda a trajetória escolar. No Ensino Fundamental eu era a esquisita, tímida, a cdf feiosa da sala. Aquela com quem não se deve fazer amizade, mas que tem serventia como bom alvo de deboche e piadas para entreter a turma. Aquela com quem gostavam de “formar parzinho” com outro pária: o menino mais feio, esquisito ou deficiente. Nunca me acomodei, não aceitei conformada essa condição. As estratégias para me fazer mais amada, porém, nunca tiveram bons resultados.
Isso até o natal de 1999. Ganhei de presente do meu tio um CD da banda de punk rock estadunidense The Offspring. No ano a seguir eu faria 15 anos, mas não queria festa, queria dar meu primeiro beijo, conhecer pessoas, ser livre, mudar o mundo e fazer amigos de verdade. E sim, seja porque o universo respondeu aos meus desejos, seja porque sou bastante determinada, aquele foi um ponto de virada na minha vida. O beijo demorou um pouquinho mais, mas ok! Eu mudei de fato, mas ao invés de tentar me adaptar, quis me reconstruir.
Chegando na nova escola, desesperada por um novo começo e em poder fazer da minha vida algo diferente, não era a única novidade. Havia outra forasteira no pedaço: Tereza.
Tereza era linda, imprevisível e extravagante. Tinha um corte de cabelo diferentão, uns peitões de colocar respeito, usava grandes e coloridos anéis, vinha do Rio de Janeiro e exalava liberdade e modernidade por todos os poros. De cara, se tornou uma sensação: os meninos babavam, as meninas miravam cheias de curiosidade.
Para mim Tereza era quase um personagem saído da minha imaginação. A Barbie que eu brincava e vivia as maiores aventuras um ano antes de entrar para o Ensino Médio também se chamava Tereza. Ousada, destemida, igualmente extravagante e, acima de tudo: amada. Meu alter ego encarnado.
Ela não era como as outras meninas bonitonas e populares que debochavam de mim ou me tratavam com desdém. Nunca fomos propriamente amigas, acho que ela não chegou a fazer nenhuma grande amizade naquela escola, mas sempre foi simpática comigo, me tratava bem, conversava.
Porém, em pouco tempo Tereza se tornou demasiada para a visão estreita de meus colegas. Ela queria liberdade e se sentia sufocada. De desejada, passou a ser malquista, desajustada certamente.
Tereza foi embora da escola. Nunca falei mal de Tereza, eu a admirava, não invejava. Mesmo quando ela ficou com o menino por quem eu me derretia, somente me resignei. Não me sentia suficientemente “Tereza” para conquistar a afeição dele.
O tempo passou, eu continuei Mariana, mas deixei vir à tona doses de Tereza que sempre viveram em mim. Às vezes ela aflora mais acentuadamente, às vezes ela se resigna e vai tirar um cochilo. Se é verdade que somos feitas de várias facetas, quase como subpersonalidades, aquela que dentro de mim olha para cima e diz bem alto “Eu sou foda!” certamente se chama Tereza.

Mariana Penna (2018)


Desorientador



Ele me disse que na Grécia Antiga se identificava pelo rosto a doença que uma pessoa portava. Sorte a minha que tal conhecimento já se perdeu, ou ele saberia que não era de uma doença que eu padecia enquanto ouvia sua explicação. Entre o expresso e os livros de Kafka, passando pela leitura agnóstica de tarôs online, meu cérebro pensava tornar matéria o que até então era só ideia. Quem era até então livro, se fez homem no meu mundo. E valha-me a santa matéria, mas que homem! Digam o que quiserem, nada me convence de que ele não é lindo! E sua voz suave... Ah como eu gosto de voz suave! Mas o cérebro não faz matéria, ele só fantasia. É ridículo, mas sonhar ainda é permitido, mesmo quando te empregam o pronome de tratamento “cara”, ao menos a despedida foi um “grande abraço” e não um triste “atenciosamente”.

Mariana Penna (2014)



quinta-feira, 3 de maio de 2018

Sobre meninos e a pressa


Eu estava andando na rua, calmamente, olhando mensagens no celular. De repente, como um raio, passou por mim correndo um menino que aparentava ter uns 13 anos de idade. Havia vários outros transeuntes, mas ninguém se assustou. Devia estar atrasado para o curso, talvez prestes a perder o ônibus para casa, quem sabe até sua mãe já o esperava ansiosa em algum ponto de encontro. Ninguém se assustou, o menino não interrompeu o curso regular de ninguém pelo caminho, afinal, vez ou outra é normal ter pressa. Mesmo que isso ocorra regularmente, pode até não ser apropriado, mas não é nenhum crime ter pressa. No entanto, aquele menino correndo me fez lembrar outro menino, que também era adolescente há não muito tempo atrás. Um menino que certa vez me confidenciou um dos seus maiores medos: ter pressa. Este segundo menino é negro.



(Mariana Penna, 2017)